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Terça, 14 Janeiro 2020 15:56

Amasias ou Amós: O que vai ser? (Amós 7.10-17)

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Amasias ou Amós: O que vai ser? (Amós 7.10-17) Imagem de Jordy Meow por Pixabay

Amasias ou Amós: O que vai ser? (Amós 7.10-17)

Nada há de errado com o templo

Nada há de errado com o templo, enquanto ele permanecer como um lugar consagrado ao Senhor, sob cujo senhorio todos igualmente se submetem à sua vontade.

Nada há de errado com o templo, enquanto ele continuar a ser um lugar de encontro das pessoas com Deus, pessoas que se ajuntam sob o mesmo e poderoso nome do Senhor.

Nada há de errado com o templo, enquanto ele servir como lugar de comunhão entre as pessoas que cultivam a mesma fé.

Nada há de errado com o templo, enquanto ele conservar-se como um lugar mantido pelo espírito voluntário do povo de Deus.

Nada há de errado com o templo, enfim, enquanto ele for um lugar no qual se pode ouvir a Palavra do Senhor.

Enquanto o templo for um lugar consagrado ao Eterno; promover o encontro de pessoas com seu Deus; propiciar a comunhão entre os fiéis; subsistir com o espírito voluntário do povo; e se puder ouvir a voz de Deus, então poderemos afirmar que nada há de errado com o templo.

Tudo de errado com o templo

Entretanto, se o templo se transformar em um lugar consagrado a homens e mulheres, e o Senhor for banido do santuário, como a fumaça do sacrifício que sai pela chaminé ou como a gordura dos holocaustos que escorre pelo ralo, então, sim, há algo de errado com o templo.

Se o templo se converter em um lugar de desencontros, onde as pessoas vão por causa dos rituais, ou das obrigações, ou das tradições e em seus próprios nomes, e não para um encontro festivo do povo de Deus, então, sim, há algo de errado com o templo.

Caso o templo se transfigurar em um lugar de conflito entre as pessoas, de discórdia entre elas por causa do seu status social, da sua condição econômica, do seu grau de instrução, do seu gênero, cor ou por causa das suas opções políticas, então, sim, há algo de errado com o templo.

Se ainda o templo tornar-se um lugar de exploração financeira com foco nos insistentes pedidos de dinheiro, contribuição, ofertas, dízimos e no oferecimento de bênçãos e benesses celestiais barganhadas em nome de Deus, então, sim, há algo de errado com o templo.

E se, finalmente, o templo servir de lugar para a proclamação da palavra de homens inspirados em seus próprios conceitos, em suas convicções de autoajuda, autopiedade, autoconsagração, automotivação, palavras de mulheres motivadas por seus preconceitos, seus moralismos, modismos, então, sim, há algo de errado com o templo.

O conflito entre essas duas visões

O texto de Amós 7.10 a 17 apresenta o conflito entre esses dois mundos distintos descritos acima em rápidas pinceladas, pois certamente que a situação é bem mais complexa do que pode parecer à primeira vista. O segundo cenário, no qual há algo errado com o templo, é a realidade de Amasias, o sacerdote. Já a primeira realidade, na qual nada há de errado com o templo, é o cenário de Amós, o profeta.

Então é preciso perguntar de maneira clara e contundente: Em qual dos dois cenários estamos vivenciando a nossa fé? Em qual das duas realidades gostaríamos de vivenciar a nossa fé? Na realidade de Amasias ou no cenário de Amós?

A pergunta, portanto, é: Amasias ou Amós: o que vai ser?

As respostas para essas duas perguntas não são fáceis, mas são extremamente importantes e necessárias.

Amasias, o sacerdote, é pelo Rei

O texto apresenta uma situação na qual o templo já passou do primeiro para o segundo estágio, isto é, de um lugar consagrado a Deus para um lugar consagrado ao rei. O ideal de um lugar de encontro e comunhão entre as pessoas e o Senhor há muito deixou de existir. Não faz mais parte nem da memória, quem dirá da prática.

Amasias, o sacerdote, é o responsável por proclamar que o templo é o santuário do rei e do reino. É o sacerdote que tem a tarefa de gerir o templo e zelar pela manutenção deste estado de coisas nas quais a religião jaz encarcerada. É ele quem defende, com unhas e dentes, o santuário consagrado ao rei e ao reino. Não é demais dizer que o templo exerce uma função política e social ao manter o símbolo do poder de Jeroboão II como o filho de deus, na ideologia monárquica da época, o que mantém a coesão social.

O sacerdote, que deveria apresentar o povo diante do Senhor, que deveria oferecer sacrifícios pacíficos em nome das pessoas, que deveria apresentar as queixas dos fiéis ao Eterno, que deveria fazer holocaustos pelo pecado e absolver as pessoas, esse sacerdote dá as costas ao rebanho e passa a sustentar a ideologia real. Ele sucumbi aos encantos da prosperidade financeira, da pompa e circunstância de todo o aparato religioso e sacrificial. O sacerdote se alinha ao rei e se torna um porta-voz do palácio.

Doravante, o templo é consagrado ao rei, não a Deus. Nada de encontros, só rituais. Nada de comunhão, só sacrifícios. Nada de ofertas voluntárias, só taxas e pagamento. Nada de Palavra de Deus, só palavra de homens. Assim é Betel (Casa de Deus), o santuário do rei e do reino.

Não foi suficiente ao rei tomar as casas dos pobres, ele tinha que se apropriar da casa de Deus às custas de muito sangue e lágrimas de inocentes.

Amós, o profeta, é pelo Senhor

Todavia, há um incômodo no coração daquele que foi despejado de sua própria casa. O que aperta o coração do Senhor não é propriamente o templo de tijolos, mas o templo como lugar de encontro e comunhão com suas servas e seus servos, com aqueles que lhe são fiéis. O que dói no íntimo do Eterno é o fato de não poder mais estar presente entre o seu povo amado e trazer-lhe uma palavra de consolo e salvação.

Mas isso não vai ficar assim não!

“Tem um boiadeiro que risca figos lá em Judá. Vou tomá-lo e enviá-lo a Betel para anunciar o meu desgosto com essa situação. Seu nome é Amós.”

Contra o templo e o rei fala Amós, o profeta. É ele quem tem a missão de desmascarar a ideologia que sustenta o estado de ostentação do templo às custas da penúria e sofrimento do povo em geral. O profeta desnuda os mecanismos de exploração do reinado, que usa o templo como justificativa e motivação para extorquir o povo de Deus por meio de impostos e taxas.

Por isso, Amós, o profeta, está em Betel (Casa de Deus). Ele traz a palavra do Senhor ao centro do Reino do Norte de onde ela nunca deveria ter saído. Porém, não é uma palavra de conforto ou salvação, pelo contrário, é uma acusação devastadora. É um anúncio de juízo, de desgraça, de destruição.

Tal palavra de Amós é colocada bem no meio das visões sobre a ruína de Israel que ocupam o capítulo sétimo e o início do oitavo capítulo. Nas visões são apresentadas as motivações do Senhor para agir desta forma contra Betel e o Reino do Norte. Nada mais há que se fazer por este reino, a não ser destruí-lo.

Por todo o livro de Amós é possível encontramos as declarações contundentes do profeta contra os abusos do rei. No livro inteiro ressoa a voz oracular de condenação contra os sacerdotes por terem deturpado o propósito do templo, lugar de encontro de Deus com seu povo. Na profecia de Amós ressoa as acusações contra os poderosos ligados à corte e ao templo pela sua conivência e participação ativa na opressão espiritual e social de Israel. E o ápice deste livro profético é o capítulo 7 que apresenta a condenação como um fato consumado e aponta o templo como a principal engrenagem do mecanismo de exploração do povo como causa desse desastre.

Amasias, o sacerdote, se empenha pela manutenção do templo e do reinado de Jeroboão II. Amós, o profeta, se empenha pela transformação do templo e do reinado de Jeroboão II. Amasias e Amós. O sacerdote e o profeta. O sacerdote que fala em nome do rei e o profeta que fala em nome do Senhor. O conflito está estabelecido, a luta está declarada, pois há uma incompatibilidade entre aquilo que defende o sacerdote e aquilo que defende o profeta.

Amasias, o sacerdote, rejeita Amós e, com ele, a Palavra do Senhor

Antes que o desastre aconteça, porém, a palavra de Deus, enviada por meio de Amós, é totalmente rejeitada como palavra de homens por Amasias, o sacerdote, (Assim diz Amós: v. 11). Como serviçal do rei, o sacerdote envia emissários a Jeroboão II para dizer que Amós está conspirando contra o rei e o reino, anunciando a deportação da nação para uma terra estranha e imunda.

O sentinela do rei, Amasias, está vigilante contra qualquer ameaça que ponha em risco as estruturas religiosas que justificam a opressão espiritual e material sobre o povo. Por isso, o sacerdote prontamente tenta deter o profeta. Vai-te daqui, ô visionário! Foge para a tua terra, ali come o teu pão e ali profetiza; mas não aqui em Betel. (vv. 12-13). Como quem diz: Comigo não violão!

Os verbos no imperativo, aqui, significam uma ordem. Ficar não é uma opção para Amós, conforme Amasias.

Se manda, ô conspirador! Israel e o rei não podem suportar nem sofrer essa sua palavra. Aqui você não tem voz e nem vez. Não vai ganhar nada falando assim. Aliás, nem daqui você é, nem sabe o que se passa por aqui. Quer ganhar o seu pão? Volta para a sua terra e profetiza lá, quem sabe alguém não escute você por aquelas bandas.

Amasias, o sacerdote, toca em um ponto sensível não só de Amós, mas de todos nós, o sustento diário. Ele iguala Amós aos profetas que profetizavam por dinheiro ou a troco de presentes. Pregar sem ganhar o pão, apenas por que Deus o enviou? Sério?!

Amós, o profeta, contra-ataca. Eu não era profeta, nem filho de profeta. (v. 14) Esta não é minha profissão, é minha vocação. Eu era boiadeiro e riscador de figos, esta era minha profissão. Mas não sei porque cargas d´água o Senhor me tomou de entre o gado e imperativamente me disse: Vai e profetiza ao meu povo Israel. E aqui estou, não por conta própria, não porque eu quisesse ou tivesse pedido, mas porque o Deus de Israel me disse: Vai e profetiza!

Então, Sr. Amasias, é bem isso mesmo que eu vim fazer e não vou deixar de profetizar contra o templo, o rei e o reino e ponto final. Ai Amós desfia o cordel sobre o próprio sacerdote proclamando um oráculo de juízo sobre ele e sua família.

Devemos identificar e escolher

O embate entre Amasias, o sacerdote, e Amós, o profeta, é um conflito sempre atual em nossas igrejas.

Há aquelas pessoas que agem como sacerdotes, pois lutam pela manutenção de um estado de coisas insustentável. Lutam pela manutenção de templos que há muito deixaram de ser consagrados a Deus. Lutam pela manutenção de espaços que já não servem mais para promover encontros entre Deus e seu povo. Lutam pela manutenção de conflitos entre as pessoas e não de comunhão entre elas. Lutam pela manutenção de santuários que exploram emocional, espiritual e financeiramente o povo em geral. Lutam, enfim, pela manutenção de púlpitos que proclamam palavras humanas comprometidas com ideologias políticas, com alguns setores da sociedade, palavras que mais parecem palestras de autoajuda e motivação.

Por outro lado, há aquelas pessoas que agem como profetas, pois lutam pela mudança desse estado de coisas insustentável. Lutam pelo direito de Deus continuar a ser o Senhor do templo. Lutam para que o templo seja um lugar de encontro de Deus como o seu povo. Lutam para que o templo seja um lugar de comunhão entre os fiéis. Lutam para que o santuário continue a ser mantido pelo espírito voluntário dos fiéis. Lutam, enfim, para que no templo a Palavra de Deus seja ouvida sempre.

Assim, sobre nós, a liderança da Igreja, e sobre o povo de Deus em geral, pesa a responsabilidade de identificarmos em qual dos dois cenários, se do sacerdote ou do profeta, estamos vivenciando a nossa fé. Caso estejamos agindo como sacerdotes, então precisamos, por um lado, ouvir a voz profética que nos exorta a uma mudança e voltarmos aos propósitos de Deus para nossa Igreja. Caso queiramos vivenciar a nossa fé como o Senhor quer que a vivenciemos, então necessitamos, por outro lado, falar como profetas e profetizar contra tudo o que há de errado em nosso meio.

Ao lado de quem lutaremos? Escolheremos ser sacerdotes e sacerdotisas ou profetas e profetizas? Lutaremos pela manutenção de templos e santuários ou lutaremos pelas pessoas? Ficaremos ao lado do rei ou ficaremos ao lado de Deus? Obedeceremos o chamado do rei ou obedeceremos o chamado de Deus? Ouviremos a palavra de homens ou ouviremos a Palavra de Deus?

A pergunta que não vai calar é: Amasias ou Amós: o que vai ser?

Ler 613 vezes Última modificação em Terça, 14 Janeiro 2020 16:26
jrcristofani

José Roberto Cristofani - Casado com Cida Crema Cristofani. Pai, Pastor, Professor de Teologia. Educador, Escritor, Especialista em Educação a Distância e Doutor em Antigo Testamento.

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